A safra 2026/27 de soja já começou a avançar no Brasil. No fim de setembro, a Conab registrava semeadura em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, ainda em ritmos diferentes conforme chuva, umidade do solo e calendário sanitário. (gov.br)
Junto com o início da nova safra, ganha importância uma mudança na forma de avaliar o risco climático.
O Zarc Níveis de Manejo, ou ZarcNM, acrescenta uma pergunta ao zoneamento tradicional:
como esse solo vem sendo manejado?
A lógica é simples. Duas lavouras no mesmo município podem receber praticamente a mesma chuva e responder de maneiras diferentes a um veranico. Parte dessa diferença está na capacidade do solo de armazenar água e permitir que as raízes explorem melhor o perfil.
28 safras começam a medir esse efeito
Um estudo divulgado pela Embrapa analisou 28 safras consecutivas de soja e mais de 4,3 mil pontos georreferenciados.
O resultado mostrou que cada avanço no nível de manejo esteve associado, em média, a 11,1 pontos percentuais a mais de produtividade relativa. (embrapa.br)
Esse resultado descreve a média do experimento de longa duração em Dourados (MS). Não representa um ganho garantido para qualquer talhão ao mudar de nível.
Isso ajuda a transformar em número algo conhecido na prática.
Imagine dois talhões submetidos ao mesmo período sem chuva. Em um deles, as raízes exploram um perfil mais profundo, o solo está coberto e há melhor armazenamento de água. No outro, as raízes ficam concentradas na superfície.
A chuva foi a mesma. A capacidade de atravessar o período seco, não.
O que são NM1, NM2, NM3 e NM4?
O ZarcNM classifica as áreas em quatro níveis.
O NM1 representa a condição mais baixa dentro da metodologia. O NM2 corresponde aproximadamente ao manejo médio encontrado nas áreas avaliadas pela Embrapa no Paraná e em Mato Grosso do Sul. NM3 e NM4 representam sistemas progressivamente mais estruturados e conservacionistas. (embrapa.br)
Para a soja, a classificação considera seis pontos principais:
- saturação por bases de 0 a 20 cm;
- cálcio entre 20 e 40 cm;
- saturação por alumínio entre 20 e 40 cm;
- tempo sem revolvimento do solo;
- cobertura com palhada antes da semeadura;
- diversidade de cultivos nos últimos três anos. (gov.br)
Isso permite ao produtor enxergar concretamente o que está puxando sua área para cima ou para baixo.
O que realmente muda de um nível para outro?
Alguns critérios são fáceis de visualizar.
No tempo sem revolvimento:
- menos de 3 anos → nível 1;
- 3 a menos de 5 → nível 2;
- 5 a menos de 8 → nível 3;
- 8 anos ou mais → nível 4.
Na cobertura com palhada:
- menos de 30% → nível 1;
- 30 a menos de 60% → nível 2;
- 60 a menos de 90% → nível 3;
- 90% ou mais → nível 4. (gov.br)
O ZarcNM também olha mais fundo no perfil.
Para o cálcio entre 20 e 40 cm, o nível 4 começa em 1,5 cmolc/dm³.
Na saturação por alumínio, a lógica é inversa: o nível 4 exige valor abaixo de 5%. (gov.br)
Agronomicamente, isso importa porque raízes capazes de explorar camadas mais profundas acessam um volume maior de solo e, consequentemente, uma reserva maior de água.
Essas faixas atribuem pontos a cada indicador; não definem, isoladamente, o NM final do talhão. A classificação combina os seis indicadores e aplica regras de exclusão ou rebaixamento. O enquadramento oficial exige os dados completos e o registro no Sistema de Informações de Níveis de Manejo (SINM).
Plantio direto não é apenas deixar de arar
A diversidade de culturas também entra na classificação.
No nível 2, são exigidos pelo menos quatro cultivos nos últimos três anos, envolvendo duas espécies e duas famílias botânicas.
No nível 3, são pelo menos seis cultivos, com presença de culturas de cobertura.
No nível 4, a diversidade aumenta ainda mais, chegando a pelo menos quatro espécies e combinações mais robustas de plantas de cobertura. (gov.br)
Isso ajuda a mostrar uma diferença importante: plantio direto não é simplesmente parar de revolver o solo.
Um sistema com palhada, rotação e raízes de diferentes profundidades constrói o perfil de maneira diferente ao longo dos anos.
E a matéria orgânica?
A matéria orgânica não entra diretamente entre os seis indicadores usados na pontuação.
Ainda assim, várias práticas que elevam o nível de manejo também favorecem seu acúmulo: maior produção de palhada, rotação, diversidade de espécies e longos períodos sem revolvimento.
Com isso, melhoram agregação, porosidade, atividade biológica e dinâmica da água no solo.
Esse tema se conecta diretamente ao nosso artigo sobre matéria orgânica no solo.
Como avançar de nível?
Em vez de olhar apenas para a classificação final, o produtor pode observar quais indicadores ainda limitam sua área.
Na prática, isso significa:
- aumentar a produção e permanência de palhada;
- diversificar a rotação;
- incluir plantas de cobertura;
- reduzir revolvimentos generalizados;
- avaliar o solo também entre 20 e 40 cm;
- corrigir limitações químicas em profundidade;
- melhorar a exploração radicular;
- conservar terraços e adotar semeadura em nível onde necessário.
Um ponto importante é o tempo.
Só o indicador relacionado ao revolvimento exige oito anos ou mais para atingir o nível máximo.
O sistema premia construção contínua do solo, não uma intervenção isolada.
Onde isso já vale?
Na safra 2026/27, o piloto do ZarcNM para soja foi ampliado para Paraná, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. (embrapa.br)
A mudança também começa a aparecer na gestão do risco e no seguro rural.
O princípio por trás disso é simples: o risco climático não depende apenas do clima.
Parte da capacidade de uma lavoura de atravessar um período adverso também é construída dentro da propriedade.
Para levar para a lavoura
Neste checklist, “nível 4” se refere à faixa de pontuação de cada indicador. Cumprir um desses valores não garante, sozinho, a classificação final NM4.
Antes da próxima análise da área, vale conferir:
☐ Há quanto tempo o solo não é revolvido?
☐ Quanto da superfície está coberta por palhada antes da soja?
☐ A rotação dos últimos três anos possui diversidade real?
☐ A análise inclui a camada de 20 a 40 cm?
☐ O cálcio nessa camada se aproxima ou supera 1,5 cmolc/dm³?
☐ A saturação por alumínio está abaixo de 5%?
☐ As raízes conseguem explorar camadas mais profundas?
Como referência rápida:
Tempo sem revolvimento: menos de 3 anos = nível 1; 8 anos ou mais = nível 4.
Cobertura por palhada: menos de 30% = nível 1; 90% ou mais = nível 4.
Cálcio em 20–40 cm: 1,5 cmolc/dm³ ou mais = nível 4.
Saturação por alumínio em 20–40 cm: abaixo de 5% = nível 4.
O ZarcNM transforma a expressão genérica “melhorar o solo” em critérios que podem ser acompanhados ao longo dos anos.
E essa talvez seja a principal novidade: o manejo passa a entrar de forma explícita na própria avaliação do risco climático da soja.
Fontes e transparência editorial
Texto aprovado pela curadoria editorial. Critérios de manejo conferidos na IN SPA/MAPA nº 2/2025 e informações da safra confrontadas com Conab e Embrapa em 2 de outubro de 2026. A aplicação operacional deve considerar as regras vigentes para a safra e a área.